A Galeria Ybakatu apresenta a Individual Quiçá, do artista Hugo Mendes. Abertura dia 29 de novembro, às 19H.

Operando na prática fragmentária e na diversificação de materiais, assim segue a mais recente exposição do artista Hugo Mendes. Será apresentada uma nova série de trabalhos, a qual atua na convergência e conexões entre conceitos distintos gerando uma mostra não planificada. O artista desdobra a sua produção como parte de processos de decantamento, sem deixar de lado aquilo que mais se repete em sua produção: o afastamento autoral. Pois embora realizadas por meios artesanais, estas peças possuem características típicas da produção industrial, fazendo com que qualquer vestígio da sua produção artesanal seja ocultado. Uma vez afastados, o papel autoral e o tempo demarcado da produção, o que mais importa diante destes objetos, não são os objetos físico/artísticos em si, e sim, a imagem simbólica e o diálogo não-discursivo que existe na essência entre o objeto e o espectador.

Sobre o artista:

Hugo Mendes - Curitiba, PR – 1981. Vive e trabalha em Curitiba

Licenciado em Artes Visuais com ênfase em computação pela UTP / 2006, Curitiba-PR; Pós-graduado em Ensino das Artes Visuais: práticas pedagógicas e linguagens contemporâneas pela UTP / 2011, Curitiba-PR; Professor das faculdades de Artes Visuais, Arquitetura e Urbanismo e Fotografia da Universidade Tuiuti do Paraná desde 2012.

http://ybakatu.com/hugo-mendes/sobre-o-artista

Sobre a Ybakatu: A Galeria Ybakatu Espaço de Arte atua há 20 anos no cenário de artes visuais. Realiza mostras individuais e coletivas, participa de feiras de arte e representa artistas brasileiros e internacionais. É associada à ABACT (Associação Brasileira de Arte Contemporânea). Entre os artistas da galeria estão Alex Flemming, Brandon LaBelle, C.L. Salvaro, Cláudio Alvarez, Cristina Ataide, Debora Santiago, Fernanda Magalhães, Fernando Augusto, Fernando Cardoso, Fernando Ribeiro, Francisco Olivares Díaz, Glauco Menta, Hugo Mendes, Isaque Pinheiro, João Loureiro, Ligia Borba, Marcelo Scalzo, Marcus André, Marta Neves, Ricardo E. Machado, Rogério Ghomes, Sebastiaan Bremer, Sonia Navarro, Tatiana Stropp, Yiftah Peled e Washington Silvera.

 

TEXTO

Já não era sem tempo - o trabalho de Hugo Mendes

Ana Rocha*, 2016

Acompanho o trabalho do artista Hugo Mendes há mais ou menos dez anos. Durante esses anos, entre faculdade, conversas e exposições, tive a oportunidade de observá-lo trabalhando no ateliê algumas vezes. Nos anos do curso de Artes Visuais, que ambos fizemos na Universidade Tuiuti do Paraná, em Curitiba, Hugo era o aluno responsável pelo ateliê de gravura, e eu pelo de fotografia. Eu, no primeiro ano do curso, e Hugo já no último ano. Lembro de me interessar pelas técnicas da gravura, por seus procedimentos, de passar as tardes no ateliê conversando sobre arte e observar Hugo trabalhar num projeto novo. Ali, durante o período de algumas semanas, acompanhei a impressão de sete mil gravuras de uma mesma imagem, parte de um trabalho que não lembro de ter sido concretizado. A gravura é uma técnica que exige rigor no cumprimento de seus procedimentos e Hugo era uma “máquina” de fazer gravuras. A tinta era posta no balcão de pedra à esquerda, os materiais e as matrizes estavam à direita, posicionados em série, o que permitia ao artista padronizar seus movimentos como uma máquina: passar o rolo na tinta, na matriz, na tinta, na matriz, repetidamente, até todas estarem entintadas. Após isso, as matrizes eram todas encaixadas no papel, levadas à prensa, e finalmente impressas. Repetidas vezes e com movimentos iguais. Concentrado. Como se seu esforço estivesse impresso ali naquelas gravuras. Hoje em dia, Hugo Mendes dedica-se muito mais à escultura do que à gravura, mas seu processo de trabalho continua buscando referências no mundo industrial, como se suas mãos fossem parte de uma máquina que produz, contraditoriamente, objetos únicos, objetos que dificilmente terão um equivalente, ou cópia, seja pela madeira utilizada ou pela própria falha humana em repetir o mesmo movimento precisamente como uma máquina. Seu trabalho, feito sempre artesanalmente, não transparece tal artesania; suas esculturas beiram o industrial pelo acabamento, polidez, formas precisamente encaixadas e apresentação impecável. Hugo diz que isso acaba por seduzir o espectador e atraí-lo para que então se atente aos outros aspectos do trabalho. A exposição “Quiçá” traz obras produzidas ao longo de 2016, que podemos separar em dois conjuntos. O primeiro grupo é composto por obras construídas a partir da apropriação de fragmentos, com técnicas que escondem seus processos de feitura, apesar da manufatura manual, repetitiva, com materiais industriais e superfícies polidas resultando num perfeccionismo invejável. O segundo, com objetos esculpidos em material exposto, ao natural, ou com menor controle da manufatura, como a palha e o adobe. Para cada objeto que vemos nessa exposição, Hugo Mendes começa pelo desenho, não como projeto, mas para dar vazão àquela imagem que lhe salta à mente. É como se através do desenho Hugo conversasse melhor com essas formas. Das obras do primeiro grupo, chamo a atenção para ‘As três sombras’ (1). Uma escultura feita da repetição de uma mesma forma, um cone circular reto, na cor preta, que justapostas, formam um semicírculo. O título se refere à escultura homônima de Auguste Rodin (2), parte de sua grande obra ‘A Porta do Inferno’, inspirada na Divina Comédia de Dante Alighieri. Na obra de Rodin, uma mesma figura humana é repetida três vezes e parece girar ao redor de um mesmo ponto. Para Rosalind Krauss, a repetição crua em Rodin subverte o caráter narrativo e a ideia de composição (arranjo rítmico das formas), torna explícito o processo de repetição de sua criação, o que a historiadora define como uma paródia da tradição de agrupar figuras tríplices na escultura. Sabendo disso, Hugo Mendes, ao apresentar o mesmo jogo de repetição em ‘As três sombras’, provoca, ao mesmo tempo, uma ilusão de ótica de profundidade, pelo encaixe dos três cones, e desmonta qualquer narrativa não autorreferente. Aqui, reconhece-se um denso diálogo com a escultura moderna, sublinhando sua capacidade de síntese, aproximação e distanciamento da própria história da arte. Entre o que chamo de segundo grupo, me vem a mente como um profundo amadurecimento de sua pesquisa ‘Infinito circular ou rola-bosta’ (3), obra composta por duas esferas e uma base de madeira. O título é o nome de um besouro que tem como hábito, para reproduzir-se, enrolar suas larvas em excrementos de outros animais, que também são seu alimento, e transportá-los até um lugar seguro, numa incrível habilidade de manter sua prole em segurança. A escultura é feita de uma esfera em cerâmica, coberta de tinta poliéster de cor nacarada, que se apoia sobre outra, feita de adobe, mistura de terra, água e palha, um dos mais antigos materiais da construção civil. Além da semelhança com o próprio besouro que dá nome à escultura, nesse, diferentemente dos trabalhos mais antigos, somam-se outros campos do conhecimento aos diálogos com a história da arte. Incorporar a base ao trabalho certamente nos lembra o escultor Brancusi. Infinito circular sugere tanto o hábito do besouro rolar a bosta para criar e alimentar sua prole, os ciclos da vida, como o abrigo, a casa, como se ali se abrigasse e protegesse um bem precioso. Início e fim em um único objeto. No processo de produção, entre o começo e o término de cada escultura, tantas outras se misturam. Pelo longo tempo que cada peça demanda, quando um trabalho termina, outros três estão engatilhados, em processo ou em projeto. O contágio entre os trabalhos é inevitável e aponta para novos caminhos. Enquanto novas narrativas somam-se ao trabalho, as obras aqui apresentadas quiçá representam um grande momento de mudança na carreira do artista.

*Ana Rocha é curadora independente e produtora de exposições. Já organizou e coordenou várias exposições, tanto monográficas como temáticas, contribuiu para vários catálogos de exposição e ensaios críticos.

 

SERVIÇO

Galeria Ybakatu

Rua Francisco Rocha, 62 Lj. 06 Batel - Curitiba/PR

Tel: +55 41 32644752 | Skype: Ybakatu

www.ybakatu.com | Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Visitação de segunda a sexta, das 10h às 12h30 e das 13h30 às 17h.

Entrada franca.

Coquetel de abertura: 29 de novembro, às 19h. 

Período da exposição: de 29 de novembro a 10 de fevereiro de 2017.