Nem tudo é ficção | Exposição individual de Lígia Borba

Nem tudo é ficção | Exposição individual de Lígia Borba

A mostra “Nem tudo é ficção”, da artista Lígia Borba, apresenta uma investigação profunda sobre o formato do universo e as fronteiras entre o real e o imaginário. Com texto crítico de Jhon Voese, a exposição reúne séries recentes que transitam entre a precisão do desenho e a tridimensionalidade da argila, explorando o conceito de topologia, ou seja, o estudo matemático das formas que se mantêm através de deformações.

O “Caminho do Meio” entre Arte e Ciência

Partindo do pressuposto de que a ciência busca conhecer o mundo e a arte busca expandi-lo, Lígia Borba posiciona sua produção em um campo de intersecção. Suas obras não são meras representações; são argumentos visuais. A artista dá corpo a estruturas que a geometria euclidiana muitas vezes considera irreais, transformando o que seria uma “figura impossível” em presença física materializada.

Destaques da Mostra

Aquarelas de Alta Precisão: Trabalhos que exploram o jogo entre o bidimensional e o tridimensional, onde estruturas de cubos, filamentos, nós e capilares desafiam o cérebro do espectador.

Esculturas em Cerâmica: Peças que demandam o movimento do público — é preciso cercá-las e seduzi-las para compreender suas conexões. Aqui, a gravidade, os minerais e a ação do fogo consolidam o que podemos chamar de “continuidades topológicas”.

Blocos de Construção: Elementos que sugerem estruturas prediais e arquitetônicas, mas que escapam à rigidez da “geometria da terra” para alcançar uma lógica cósmica e orgânica.

Como define o crítico Jhon Voese, o trabalho de Lígia é um convite à materialização: embora pareçam ilusões, as formas à nossa frente são exatamente o que pretendem ser. A exposição é o resultado de um acordo entre a mão da artista e a vontade da matéria, oferecendo um pequeno, mas significativo passo na jornada para compreender (ou criar) o formato do universo.

De 11 de abril a 29 de maio de 2026

Qual o formato do universo?

Aprendi com uma professora que a principal diferença entre a arte e a ciência está no fato de que a segunda quer conhecer o mundo, enquanto a primeira tem por princípio a expansão dele. Entretanto, olhando para a série mais recente de trabalhos de Lígia Borba, tendo a considerar que há um caminho do meio (há sempre um caminho do meio), pois neles a artista aparece com uma função dupla, a de conhecer e a de expandir a realidade.

Investigações em artes podem seguir muitos rumos, alguns artistas são mais intuitivos, outros mais processuais, alguns criam regras que partem de pressupostos intuitivos e outra parte do trabalho consiste em aplicar, torcer, manter e quem sabe até subverter essas regras. Essas variações de processos e materiais geraram toda a sorte de objetos ao longo de toda a história da arte. Para além de pressupostos formais também há os assuntos. Ah, os assuntos! Aquilo que instiga, provoca e alimenta as mais profundas angústias e os mais belos desejos.

No caso de Lígia, atualmente um desses assuntos é a topologia. Uma palavra bastante curiosa, filha dos gregos topos, que nos remete a “lugar” e logos, que estamos bem habituados a tratar como “estudo”, mesmo que possamos explorar outras formas de tradução, mas, por ora, estudo nos cabe. Quando unidos, esses termos passam a designar uma área da matemática que é responsável pelo estudo das formas. Ou seja, o aspecto semântico das obras procura entender o aspecto formal, e vice-versa (é claro!). E eu não preciso defender isso sozinho, pois há mais de 20 anos a nossa matriarca da crítica também escreveu algo muito mais sofisticado, ao qual eu me darei ao luxo de apenas citar e concordar, vejamos:

“Embora preservando a característica semântica da forma como capacidade atemporal de experiência visual, Lígia Borba desafia o poder de percepção do espectador perseguindo em seu desafio a natureza dos materiais”. – Adalice Araújo.

Isso nos leva a pensar que essa investigação sobre o formato do universo, que agora é assunto emergente (pois podemos notá-lo mais explicitamente), percorre toda a carreira da artista.

Algum dia decidimos nomear os estudos e trabalhos de Escher, Penrose, Klein e Möbius e muitos outros como ilusões de ótica, ou ainda, como figuras impossíveis. Desde então, passamos a desconfiar de nossos olhos e, por extensão, de nossos outros sentidos. Isso não foi de todo mal, pois nossa percepção nos revela apenas um pequeno recorte do que chamamos de real. Contudo, gostaria aqui de propor uma defesa de um outro ponto de vista. Partindo das obras de Lígia Borba como argumentos visuais, gostaria de propor que vejamos esses formatos como materialização da impossibilidade. Se a matemática proíbe a existência das figuras projetadas no espaço Euclidiano, é por meio da arte que essas estruturas se tornarão fisicamente presentes. Evidentemente, vou torcer aqui a linguagem para ignorar as metáforas, analogias e sentidos figurados, mas é importante que, vez ou outra, retornemos às coisas para seu estado de literalidade. É aquilo que é.

Partimos de alguns desenhos em aquarela, aqui o nível de detalhamento nos conta uma história de um processo altamente qualificado. Cada filamento, cada volta, cada contorno explora partes de um jogo entre o bidimensional que quer ser tridimensional, mas que só pode romper essa barreira no cérebro de quem vê. Mas lembremo-nos de que ali, em nossa frente, ele já existe, o papel já o aceitou.

Tubos, cordas e capilares dividem espaço com retas, cantos e ângulos. Já repararam que temos uma tendência de chamar de geométrico apenas as “pontas”? Apenas o que parece duro? Tecnicamente, cordas, nós e tudo aquilo que é orgânico também pode ser “geometrizado”. Mas, não vamos caminhar por esses terrenos, do contrário, iremos parar na velha discussão, entre o natural e o artificial. Por outro lado, voltemos os olhos para aquilo que dá textura. Não são somente as cores, mas também os intervalos. Aquilo que está no papel é semelhante ao que foi para a argila e, depois, para o fogo.

Será possível que descobrir o formato do universo seja mais complicado que criar um novo? Quando olhamos as esculturas de Lígia, é preciso cercá-las, surpreendê-las, sitiá-las, pois só assim elas hão de nos contar o que sabem. Se esse modo vigilante não funcionar, teremos então de seduzi-las. O ponto é que quando nos damos conta já fomos, nós mesmos, capturados. Somos reféns da complexidade de formas intrincadas e perfeitamente organizadas e desembocamos, agora, na matéria-prima, no simples, no direto, no início. Entre os vazios, as janelas e os vidrados fomos também reduzidos a seres que habitam, observam e constroem.

Chegamos à óbvia conclusão de que blocos de construção servem exatamente para isso. As estruturas propostas possuem uma certa indução de elementos prediais. Todavia, é difícil nos prendermos apenas em uma leitura arquitetônica, pois nesse caso estaríamos tentando medir o incomensurável. O universo escapa à geometria, até porque esse prefixo grego ali, geo-, se refere às coisas da Terra. Lígia não busca com suas obras precisões geométricas, mas sim continuidades e conexões topológicas. A lógica está em outro lugar.

Notaram como a gravidade, os minerais que compõem a argila e as mãos da artista chegaram a um acordo? Sem falar que essas figuras só se tornaram possíveis graças à boa vontade do fogo que permitiu que o resultado fosse um tipo de resposta cabível à pergunta inicial. De maneira alguma uma resposta definitiva, mas nos fez avançar um pequeno passo em uma longa jornada.

Diante de tudo isso, tenhamos um pensamento sempre em mente em relação às figuras propostas, seja qual for o número de dimensões que vocês escolherem: mesmo impossíveis, são exatamente o que parecem ser!

Jhon Voese, 18/02/26

Sem título, 2026
Cerâmica vidrada em alta temperatura
29 x 33 x 12 cm

Sem título, 2026
Cerâmica vidrada em alta temperatura
32 x 21 x 12,5 cm

Nem tudo é ficção, 2026
Cerâmica vidrada a 1230 °C
19,5 x 21 x 20 cm

Nem tudo é ficção, 2026
Cerâmica vidrada em alta temperatura
27 x 19 x 20 cm

Sem Título, 2025
Aquarela seca com pincel em veladura
88 x 68 cm

Sem Título, 2025
Aquarela seca com pincel em veladura
88 x 68 cm

Sem Título, 2025
Aquarela seca com pincel em veladura
88 x 68 cm

Sem Título, 2025
Aquarela seca com pincel em veladura
88 x 68 cm

Carneiro, 2024
Cerâmica vidrada em alta temperatura
45 x 28 x 19 cm

Carneiro, 2024
Cerâmica vidrada em alta temperatura
58 x 14 x 14 cm

Carneiro, 2024
Cerâmica vidrada em alta temperatura
30 x 32 x 16 cm (acervo particular)

Sem título, 2024
Cerâmica vidrada em alta temperatura
36 x 38 x 17 cm

Carneiros siameses, 2024
Cerâmica com vidrado em alta temperatura
42 x 14 x 35 cm (diptico)

Sem Título, 2025 
Aquarela seca com pincel em veladura
88 x 68 cm

Carneiro, 2024-25 
Cerâmica vidrada em alta temperatura
36 x 28 x 26 cm

Pestanas, 2023
Aquarela seca com pincel em veladura
100 x 80 cm

Sem título, 2023
Cerâmica vidrada em alta temperatura
24 x 24 x 59 cm

Pestanas, 2023
Aquarela seca com pincel em veladura
100 x 80 cm

Acalanto, 2023
Cerâmica vidrada em alta temperatura
24 x 24 x 58 cm

Pestanas, 2023
Aquarela seca com pincel em veladura
100 x 80 cm

Sem título, 2023
Aquarela sobre papel, veladura papel 60% algodão, pincel número 2
76 x 57 cm

Nossos Céus, 2019
Cerâmica
36 x 36 x 28 cm

Naútico, 2021
Cerâmica vidrada em alta temperatura
48 x 17 x 15 cm

Sem título, 2020
Cerâmica vidrada em alta temperatura
58 x 9 x 9 cm

Calabrote, 2020
Cerâmica vidrada em alta temperatura
54 x 12 x 6 cm

Lais de guia, 2020
Cerâmica vidrada em alta temperatura
34 x 18 x 7 cm

Lais de Guia, 2020
Cerâmica vidrada em alta temperatura
45 x 13 x 5 cm

Nó de 7, 2020
Cerâmica vidrada em alta temperatura
6 x 55 x 9 cm

Nó de 8, 2020
Cerâmica vidrada em alta temperatura
60 x 7 x 9 cm

Sem Título, 2025 
Aquarela seca com pincel em veladura
88 x 68 cm

Sem Título, 2025 
Aquarela seca com pincel em veladura
88 x 68 cm

Sem Título, 2025 
Aquarela seca com pincel em veladura
88 x 68 cm

Sem Título, 2025 
Aquarela seca com pincel em veladura
88 x 68 cm

Nós, 2023
Cerâmica vidrada em alta temperatura
32,5 x 2 x 32,5 cm (cada)

Fotos: Gilson Camargo