{ [ ( Entre ) ] } | Exposição coletiva | Ybakatu 30 anos
Galeria Ybakatu celebra 30 anos com abertura em novo espaço que integra arte, cultura e design em Curitiba
A Galeria Ybakatu, uma das maiores referências da arte contemporânea em Curitiba, fundada pela galerista Tuca Nissel, comemora três décadas de sua trajetória com reinauguração em um novo endereço, no dia 29 de novembro (sábado) das 11h às 16h, na Avenida Vicente Machado, 1056, Batel (Curitiba – PR). Na ocasião, será realizada a estreia da exposição { [ ( Entre ) ] }, coletiva de 22 artistas com curadoria de Jhon Voese. A entrada é gratuita.
Criada em 24 de novembro de 1995, a Galeria Ybakatu teve sua gênese a partir de uma exposição realizada na casa de Tuca Nissel, como trabalho de conclusão do curso de Escultura na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap). O que seria uma tarefa acadêmica, deu início a uma trajetória dedicada à arte contemporânea e à continuidade de uma pesquisa artística sensível. “É emocionante ver que, após 30 anos, a Ybakatu se reinventa sem perder sua essência. Nosso compromisso permanece o mesmo, de sustentar uma pesquisa artística vigorosa e plural, respeitando a poética de cada artista”, afirma Tuca Nissel.
A Ybakatu (nome que significa “arvore que dá bons frutos”) inicia essa nova etapa de sua história em um local amplo, com projeto arquitetônico assinado pelo escritório Pinheiro Lima & Mattioli, dos arquitetos Maurício Pinheiro Lima e Carla Mattioli. O novo espaço foi adaptado para atender às necessidades de uma galeria contemporânea, integrando arte e arquitetura. Conta com iluminação desenvolvida pela E Iluminação e comunicação visual pela Lumen Design. O edifício que abriga a Ybakatu, Vaz Batel, foi projetado pela Triptyque Architecture e construido pela Construtora Laguna.
De 29 de novembro de 2025 a 30 de janeiro de 2026.

{ [ ( Entre ) ] } marca reinauguração da Ybakatu
Como primeira exposição do novo espaço, a galeria estreia a coletiva { [ ( Entre ) ] }, com obras de 22 artistas de diferentes gerações, em linguagens e técnicas diversas. A curadoria ficou por conta de Jhon Voese, pesquisador e curador de arte contemporânea, atuante especialmente no cenário paranaense, com trabalhos em importantes exposições.
A mostra reúne trabalhos de artistas com pesquisas consolidadas e relevantes, marca registrada da Ybakatu, contando com obras de Washington Silvera, C.L. Salvaro (ambos com trabalhos em escultura e técnica mista), Yiftah Peled, Isaque Pinheiro, Claudio Alvarez (os três apresentarão suas esculturas), FOD (Francisco Olivares Díaz), Lígia Borba, Glauco Menta, Hugo Mendes (os quatro são dedicados à escultura e à pintura), Tatiana Stropp, Willian Santos (ambos em pintura), Alex Flemming (técnicas mistas, pintura), Marta Neves (desenho, bordado, pintura, técnica mista), João Loureiro (desenho, escultura, técnica mista), Cristina Ataíde (escultura, desenho), André Rigatti (pintura, gravura), Sonia Navarro (colagem, escultura), Fernando Augusto (escultura, desenho, pintura), Fernando Cardoso (desenho), Débora Santiago (escultura, desenho, instalação, videoarte), Gilson Camargo (fotografia) e Ricardo E. Machado (videoarte).

Raízes em Curitiba, ramos espalhados pelo circuito internacional
Ao longo de seus 30 anos, a Galeria Ybakatu realizou mais de 110 exposições, entre individuais e coletivas. Desde os anos 2000, passou a ter atuação constante fora de Curitiba, representando artistas de várias nacionalidades em feiras de arte no Brasil e no exterior. Participou de importantes edições da ARCO Madrid, esteve presente em quase todas as edições da SP-Arte, além de feiras internacionais em Nova York, Suíça, Lima (Peru) e Londres, ampliando sua atuação e relevância nacional e internacional.
Essa história inclui momentos marcantes com nomes consagrados da arte brasileira. Em 1997, realizou uma exposição do escultor Amilcar de Castro, que também contou com um bate-papo com artistas e estudantes. No ano seguinte, em 1998, promoveu uma exposição conjunta de Arnaldo Antunes e Walter Silveira, reforçando sua vocação para integrar diferentes expressões e gerações. Ao longo dessa trajetória, a galeria também representou e exibiu artistas premiados, contribuindo para a consolidação de carreiras e para a difusão de suas obras em acervos públicos e coleções privadas.
Galeria Ybakatu
Av. Vicente Machado, 1056, Batel. Curitiba/PR
Visitação: de segunda a sexta das 10h às 12h, e das 13h30 às 19h
Entrada gratuita

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A polissemia intencional do título nos oferece as primeiras ferramentas para compreender a importância desta exposição. Trata-se de uma coletiva que valoriza diferentes poéticas que, mesmo em suas particularidades, carregam no DNA uma unidade: a identidade Ybakatu.
Em 2025, a “árvore que dá bons frutos” completa 30 anos e, para celebrar a efeméride, inaugura uma nova casa. O ambiente afetivo construído desde a primeira mostra, na casa da família da Tuca, passando pelos encontros proporcionados, histórias compartilhadas, feiras, bienais, e o surgimento de novas instituições, permanece vivo. Mas agora divide espaço com um mundo transformado.
“Entre” é um convite. Para uma festa agitada ou para um chá aconchegante. É também um desafio, um chamado: “se queres ver… entre”, “se tens coragem… entre”, “se quer juntar-se a nós… entre!”. É a zona de equilíbrio, a brecha, a subversão. A fronteira, o limiar, o encontro.

Washington Silvera – Sapato Expandido, 2022
Resina, madeira e filme automotivo
Cada sapato mede: 188 x 32 x 13 cm
Base triangular: 85 x 100 x 116 x 18 cm
Ao entrar na sala, surgem dois caminhos possíveis: outra ambiguidade proposta. Um conduz ao núcleo central; o outro oferece um pequeno “aperitivo” do que virá adiante. Neste primeiro parêntese estão Washington Silveira, João Loureiro e Marta Neves. Seus trabalhos abordam hábitos, cenas do cotidiano, questões do trabalho, pequenas ironias que, de leve, nos encaminham a reflexões mais profundas.
Alongar solas de sapatos sociais e torná-los monumento produz um efeito curioso: aquilo que era utilitário vira símbolo. Através dessa “improdução”, a obra registra sua época e expõe contradições do mundo que glorifica o trabalho, a ponto de esquecermos que o sapato também pertence à festa, à solenidade, à política, ou à dança que produz música pelo contato com o tablado, ao bater no chão.

João Loureiro – Máscara: homem fumando
Aço e pintura P.U.
55 x 52 cm
Ed. 5 + P. A.
O minimalismo sugestivo de João Loureiro nos induz a imaginar a figura de um homem que fuma e traz uma caneta azul na orelha. Evoca papéis sociais que ocupamos entre o descanso e o trabalho (entre a caneta e o cigarro). Seus cigarros multidimensionados, próximos ao chão, lembram que estamos sempre diante de composições de formas e cores e que, como diria Magritte, talvez isso não seja um cachimbo (ou qualquer objeto de fumar).

João Loureiro – Cinzeirão, 2024
Conjunto de desenhos em papel jornal, manteiga e couché, utilizando nanquim, ecoline e marcador.
62 x 158 cm

Marta Neves – Não Ideias, 2001-2024
Tinta sobre algodão cru
150 x 70 cm
A série das “não ideias”, de Marta Neves, também toca na exigência contemporânea por produtividade. Desde o Faxinal das Artes (2002), a artista tensiona expectativas de originalidade, inovação e utilidade. Pressões que hoje alcançam todas as profissões. Porém, boas ideias e suas negações emergem melhor quando não há peso. A reflexão aparece na descompressão.

Lígia Borba – Sem Título, 2024-25
Cerâmica vidrada em alta temperatura
36 x 28 x 26 cm
As estruturas geométricas de Lígia Borba se entrelaçam e desafiam nossa expectativa visual, como se distorcessem espaço e tempo. Ora com outras, ora consigo mesmas, abrem um campo de possibilidades. Seríamos também nós estruturas similares? Em grupo ou sozinhos? As esculturas, têm uma vantagem: permanecem estáticas. Nós, ao contrário, somos inquietos, dobramo-nos sobre nós e sobre os outros, mesmo quando aparentemente imóveis.

Lígia Borba – Sem Título, 2024-25
Cerâmica vidrada em alta temperatura
26 x 28 x 24 cm
O que está entre parênteses pode ser explicação ou suspensão; na matemática, indica o que se resolve antes. Isso também traduz muito da história da galeria: ao longo de trinta anos, arriscaram-se percursos e alcançaram-se conquistas. Uma breve pesquisa revela o elenco presente e passado da Ybakatu: indicações, prêmios, mostras individuais e coletivas em museus.
Há ousadia em reunir artistas tão diversos e confiar-lhes um espaço seguro para experimentar. Se o “entre parênteses” sugere desvio ou pausa, o que se coloca “entre colchetes” ganha outro estatuto: o de adição, comentário técnico ou mediação externa.

Yiftah Peled – Malha Coentro/Minério, 2023
Acrílico recortado pintado com minério de ferro, e nave acrílico espelho (18x15cm)
100 x 100 cm
Os colchetes se abrem no espaço maior da exposição. Ali vemos Yiftah Peled com seu objeto não identificado [possível, mas não necessariamente voador], que projeta luz sobre uma superfície reflexiva. À primeira vista, destaca-se da obra no outro lado da sala; contudo, em novo olhar, percebemos uma nave oculta entre as formas de coentro. Chamar de nave é identificar — mas ela só aparece ao olhar atento. Uma obra nos esconde, a outra nos deslumbra. Em ambas, somos abduzidos.

Yiftah Peled – Tag/Nave, 2023
Bronze e base de acrílico
24,5 x 24,5 x 6 cm
Cristina Ataíde – Projeto SALVA-ME, 2022
26 máscaras de alumínio cortado a laser, e tinta acrílica
20 x 10 cm (cada)
As máscaras de dormir de Cristina Ataíde, montadas em duas colunas longilíneas, enfrentam o pé-direito alto da galeria. Lemos cada letra pela ausência: o vazio comunica o vazio. Há algo íntimo nessa suspensão. Podemos usar máscaras assim em público [no ônibus, no avião, num abrigo], mas, ao vesti-las, traçamos um limite. Estabelecemos uma intenção clara: para nós e para os outros.

Hugo Mendes – Sem título, 2025
Madeira, fibra de vidro, resina acrílica e verniz poliuretano
102 x 50 x 32 cm
Ao lado, Hugo Mendes e Tatiana Stropp nos conduzem do sono ao sonho. A escultura de Mendes, orgânica e ambígua, parece pertencer ao reino vegetal, fúngico ou marinho. Não permite classificação estável. Curvas e volumes, cortados e polidos com precisão, contam tanto uma história possível desse “ser” quanto de sua fabricação. Madeira que parece cerâmica; cerâmica que parece tecido vivo. Tatiana oferece horizontes trêmulos: calor noturno, uma praia ao luar, cores que parecem ultrapassar o suporte. A dobra da superfície de metal faz a cor-pigmento dialogar com a cor-luz; o horizonte se refrata a cada aproximação. E, se nos perguntarmos sobre figuração e abstração, talvez a resposta esteja justamente nesse entremeio, onde a pintura atua como um elemento da própria arquitetura da sala.

Tatiana Stropp – 07.07, 2025
Óleo sobre alumínio
61 x 100 x 4,5 cm

André Rigatti – Sem título, 2025
Água-forte, água-tinta e serigrafia sobre papel Hahnemuhle 425g
20 x 15 cm (cada)
André Rigatti – Sem título, 2025
Óleo, acrílica, spray e serigrafia sobre tela
160 x 90 cm
Do interior passamos para o mundo lá fora. André Rigatti convoca uma paisagem urbana densa de visualidade: lambes, pôsteres rasgados, tags, pixo, calçadas que ressoam com os gestos de quem caminha. FOD, por sua vez, reconstrói o espaço pela “desarquitetura” dos materiais [cores que se sustentam] e se transformam conforme as justaposições.

FOD – Forma, 2014
Madeira, carpete e tinta acrílica
77 x 97 x 11 cm

Washington Silvera – Double cheese, 2025
Díptico em peroba e marfim
158 x 28 x 12 cm
Em contraponto, Washington Silveira com seus “palitos de queijo” propõe uma familiaridade que nos conduz a um pop extraordinário, quase um realismo mágico. Os furos enganam nosso olhar treinado pelos cartoons, onde queijo é sempre suíço [embora existam furos também em Maasdam, Estepe e outros]. No fim das contas, o que importa é o sabor entre um furo e outro.

Washington Silvera – Caxeta cheese, 2025
Escultura em caxeta
47 x 31 x 5,5 cm

Fernando Augusto – Sem título, 2025
Bronze
10 x 08 x 08 cm
No centro da sala, três trabalhos dialogam diretamente com o espaço da nova galeria. A pequena escultura de Fernando Augusto é estrutura dourada, pontiaguda, mas com fenda acolhedora. Há algo totêmico [sagrado] que eleva a construção a outro estatuto, assim como o disco voador dourado de Yiftah Peled. A galeria é um templo laico, mas também é lugar de ritos, silêncios e tradições.

Fernando Cardoso – Sem Título, 2025
Aquarela e guache sobre musseline
450 x 150 cm
Um grande desenho de Fernando Cardoso, com cenas idílicas e melancólicas, busca um “duplo”. Por estar suspenso, permite ver o seu verso, o que reforça essa busca. Em oposição, Isaque Pinheiro esgarça formas conhecidas, repete padrões orgânicos em stencil e apresenta a máscara ao lado da imagem, confundindo origem e figuração. O gesto revela nosso impulso por organizar tudo, inclusive o que resiste à ordem.
Isaque Pinheiro – Outside In, 2018
Mármore de Estremoz e tinta acrílica
44 x 35 x 04 cm
Voltamos à metáfora aritmética: após resolver (parênteses) e [colchetes], chegamos às {chaves}. As chaves remetem ao pertencimento. Como na representação “x ? {A}” da teoria dos conjuntos. O “entre” deixa de ser apenas intervalo e passa a operar relações: quem está dentro, quem está fora. Cada número tem suas propriedades. Alguns são pares, outros ímpares, poucos são primos, mas todos são reais {com exceção dos imaginários}. Assim também é este conjunto, que chamamos carinhosamente de identidade Ybakatu. A árvore é a chave!

Alex Flemming – Pedro Fredo, 2017-18
Acrílica sobre tela
60 x 50 cm
A longa parede inicia com duas obras que tratam de identidade. Alex Flemming apresenta uma figura sem rosto, não ausente, mas marcada por escolhas de estilo: a cor do cabelo, o penteado, uma camiseta diferente. Já C.L. Salvaro sugere um rosto sem corpo. Vergalhões, cravos e marcas de fuligem que lhe dão “expressão” compõem uma pareidolia. Mas é indo além dela que também revela uma “identidade” dos materiais de construção, quando são alçados à arte. “Quem é você?” confunde-se com “O que você faz?”. O discurso problematiza, no melhor estilo: “Você não é seu trabalho! Ou será que é?”.

C. L. Salvaro – retrato, 2024
Peça de concreto encontrada e esmalte sintético
26 X 20 X 4,5 cm

C. L. Salvaro – dobradura, 2025
Areia, resina e fibra de vidro sobre papel
28 X 19,5 X 14 cm

Glauco Menta – Sem Título, 2023
Cerâmica esmaltada
52 x 38 x 16 cm
Seguem as esculturas vibrantes de Glauco Menta, com materialidade densa que joga com a ideia de tinta enquanto suporte e superfície. Uma geologia pictórica. Um conglomerado de formas que nos remetem à organicidade antropofágica. Feitas com um material que ninguém discute se faz ou não parte do ambiente artístico que é a cerâmica.

Willian Santos – Multíscio, 2017
Acrílica sobre tela
50 x 60 cm
Atravessando a floresta de coentro, escapando {se possível} da abdução de Peled, encontramos a paisagem surrealista abstrata de Willian Santos, as ilusões mecânicas de Cláudio Alvarez e as composições têxteis de Sônia Navarro. Vamos divagar devagar por cada parte dessa nova aventura.
A arte nos oferece formas seguras de olhar para dentro. Se tivéssemos uma bula lá estaria escrito: “Efeito colateral: possível deslumbramento com a vida, use sem moderação”. A aparente distância entre a pintura massiva e cheia de simbologias de Willian Santos e as duas obras de Claudio Alvarez que são objetos de parede com detalhes em metal, se dissolve no exato momento em que entendemos que ambas nos fornecem imagens de nosso inconsciente. O primeiro faz isso cheio de matéria e detalhes em cor, bem como em suas arquiteturas que se dissolvem em planos multidimensionais. Já o segundo por ludibriar doce e divertidamente nossa percepção falha da realidade visual. Demonstrando que há muito do mundo real que não alcançamos.

Claudio Alvarez – Paisagem Onírica, 2018
Aço inox, acrílico e espelho
79 x 45 x 17 cm
Claudio Alvarez – As Horas Avessas, 2017
Alumínio, madeira, espelho e imã
169 x 26 x 26 cm
Seguimos momentaneamente conduzidos por uma aliança formal para o trabalho de Sonia Navarro, que também é cheio de sobreposições e formas que se organizam e interditam qualquer figuração nossa. Todavia é pelo material escolhido que deciframos parte dos jogos de poder envolvidos. Tensionar os tecidos, cortar e costurar insere na conversa elementos associados ao feminino. Esses trabalhos também nos mostram aquilo que muitas vezes não vemos em nossas realidades.

Sonia Navarro – Sem título, 2020
Courvin e costura
70 x 54cm (cada)
Esse desvelamento nos torna cada vez mais cúmplices e agora que sabemos, o que iremos fazer? Quais são os outros tipos de invisibilidades e ilusões de óticas que estamos caindo todos os dias?
Ainda dentro das {chaves} é possível inferir um tópico que estava presente desde o início, mas que agora se torna mais explícito. Que é o caráter existencial desse conjunto de obras. Cada um dos artistas nesta mostra traz um pouco desse assunto, uns mais, outros menos. Uns preferem um lado mais bem humorado, outros exploram mais a sutileza. O núcleo que fecha a exposição isso brilha aos olhos.

Debora Santiago – O giro do tornado, 2025
Nanquim sobre papel
250 x 35 cm
O lugar que ocupamos enquanto habitantes da Via Láctea é talvez o primeiro ponto. O desenho apresentado de Debora Santiago não é diretamente uma representação {como outros de sua autoria}, todavia cada pequena esfera parece ser atraída pela próxima numa espiral gravitacional, como se não víssemos a galáxia estacionária, mas sim uma descrição possível de seu movimento. Já os “telefones de barbante” são feitos de argila, onde ela se utiliza desse elemento tão caro ao Sapiens Sapiens. Fomos moldados no barro e fomos moldados por ele.

Debora Santiago – Caixinhas de escuta, 2016
Ação com público, peças de cerâmica e barbante
Willian Santos – Coriolis, 2014
Acrílica, encáustica e óleo sobre tela
130 x 170 cm
Podemos também refletir sobre nossas práticas existenciais como alternativas e sonhar com um futuro mais integrado. Existimos por meio de nossa comunicação. Existimos em uma rede que é coletiva. Na grande pintura de Willian Santos, uma paisagem está sendo vista. Quase que da janela de uma aeronave imensa. Uma pseudo-força criada pela inércia, gera movimento e distorções em grandes sistemas. Isso é apenas a definição do efeito Coriolis, que nomeia a obra, o que a pintura faz vai ainda além disso. Ela também evoca outro efeito da física que é a Paralaxe, que é a noção que temos de que algo que está distante se movimenta menos do que algo que está perto. Isso faz inclusive que seja possível vermos as estrelas no céu noturno quase inertes, mesmo com o deslocamento absurdo do planeta em rotação e translação.
Voltando à pintura, é por meio de efeitos complexos das ciências que nos projetamos como seres em movimento e inventamos a noção de tridimensionalidade que funciona porque somos parte desse grande sistema complexo. As mesmas leis que atuam na formação das correntes marítimas atuam no desenvolvimento dos nossos olhos. A gravidade que faz a Galáxia espiralar pelo universo, faz você estar preso ao chão e precisar de um instrumento para voar. Nosso voo, pousa em frente das pequeninas aquarelas de Fernando Augusto. Cenas de uma casa que existe apenas em nossa imaginação e de tão delicadas, quase frágeis, se dissolvem antes de chegarem à borda do próprio quadro. Vemos por uma das janelas um universo cheio de possibilidades daquilo que podemos ser. Estamos “entre” um plano existencial e tantos outros possíveis.

Hugo Mendes – Pau-Brasil, e Bromélia Rosa, 2025
Óleo sobre papel
40 x 30cm
Completando essa experiência não ordinária da consciência vemos um conjunto de aquarelas contidas com outra escultura de Hugo Mendes. Nas pinturas ele faz questão de deixar um campo de cor, já na escultura a transformação é completa. Quase não há fronteira entre a obra e o mundo.
Gilson Camargo – Protocololo Elefante / Grupo Cena 11, 2017
Fotografia (cópias fine art), e gif animado
90 x 60 cm
De outro lado, temos duas fotos e um gif de Gilson Camargo que exploram a plasticidade do corpo humano ainda que num registro estético de outra área, a dança, a performance, sobretudo o movimento. Em contraponto, a cor viva, a cor objeto, retornam com um splash de Glauco Menta e com chapas verticalmente colocadas de Tatiana Stropp.

Obras como essas também distorcem qualquer paisagem que poderíamos imaginar quando dispostas lado a lado. As fendas criadas entre cada um dos elementos do políptico dialogam, justamente por oposição, com a forma aglutinante vermelha e isso embaralha nossas associações. Esse embaçamento da paisagem por meio dos diferentes modos de se fazer pinturas também serve para nos tirar da imagem interna e passarmos a perceber ainda mais quais linhas encontramos externamente e quais nunca irão se encontrar

Glauco Menta – Sem Título, 2019
Cerâmica esmaltada
38 x 34 x 9 cm

Tatiana Stropp – 21.03/17.08, 2014-16-23
Óleo sobre alumínio (frente), acrílica (verso)
40 x 120 cm

Ricardo E. Machado – “Sapataria Brasilía“, 2025
Vídeo / 1 canal / colorido / sonoro
Dimensão variável (Full HD, 1920x1080px) 16:9
Num ambiente mais contido, temos os vídeos de Ricardo E. Machado retratando a beleza de um país tão múltiplo cuja capacidade de gerar situações é infinita. Seja no gesto simples de um sapato ou uma sandália repetidamente jogados, cujo ambiente é quase instalativo, por assim dizer. Quantas histórias se encontram em cada par de calçados ali nessa e em outras sapatarias do Brasil? Cada objeto de descarte ou de desejo que encontramos e deixamos para lá.
Seja no excesso de ideias e conexões, ou na falta delas, como no trabalho de Marta Neves que vimos logo no início (e que vemos novamente ao final), seja no gesto simples do pescador de Fernando Cardoso e que nos protege de um mundo faminto por inovações produtivas [de modo quase doentio] são em espaços como este, galerias como a Ybakatu, que podemos nos sentir livres, para também experimentar, para termos a sensação de suspensão, para podermos nos dar ao luxo de apenas estar entre {…}
Jhon Voese, curador

Com 30 anos de história, Galeria Ybakatu reinaugura em novo endereço
https://www.bemparana.com.br/publicacao/colunas/coluna-do-miau/arte-em-curitiba
https://www.plural.jor.br/exposicao-coletiva-entre-esta-em-cartaz-na-galeria-ybakatu/