Dobra, tempo, espaço | Exposição individual de Tatiana Stropp
Em sua segunda exposição no novo endereço, a Galeria Ybakatu apresenta a primeira individual após a coletiva inaugural. Dobra, tempo, espaço, de Tatiana Stropp, traz um recorte de sua produção recente.
De 09 de fevereiro a 27 de março de 2026

dobra, tempo, espaço
“O resto é ar e o resto é lento fogo em perpétua mutação”
Clarice Lispector, Água Viva
A dobra do tempo. O tempo da dobra. A mostra individual de Tatiana Stropp – dobra, tempo, espaço – traz à público diversos momentos de sua trajetória, um conjunto de trabalhos que revela a intensa experimentação com a pintura sobre a superfície do alumínio, material industrial que passa também por intervenções, dobras, recortes em formatos diversos. A invenção está presente também nas estratégias de montagem, a pintura torna-se objeto, desloca-se da parede, projeta-se no espaço da vida. Nada é fugaz, não há aderência à velocidade do agora, são pinturas que demoram, descansam, resultam de um processo contínuo de vai-e-vem, de pausas, de um fazer-desfazer-refazer indeterminado, do andar contínuo do pincel que desanda e refaz o caminho deixando marcas, memórias, as ranhuras das cerdas, o acúmulo de tinta nas bordas, camadas de cores, opacidades, transparências, fusões e contrastes.
Como uma dança, uma escritura no espaço, a pintura se faz com o corpo, contraindo e retraindo os músculos, cadenciando a respiração, por isso nunca a linha reta do esquadro, mas a sinuosidade da vida, pinceladas amplas e variações sutis, a vitalidade do gesto.
Assim, nessa movimentação, no jogo do olhar no ateliê, na interação entre o espaço da vida e o espaço da obra, cada pintura exige um tempo, até que, enfim, concluída, recebe o registro no título: dia e mês e ocasionalmente uma vírgula, uma pausa: 19.10 ~ 09.05 ~26.09, ~ 24.05, ~ Na sequência, na legenda, o ano de produção. Não há marcação sequencial do 1 ao ∞ tal como nas pinturas de Roman Opalka, mas paisagens de tempos embolados em modulações de cores quentes e frias, mar-radiante, passado e presente e “o futuro é para a frente e para trás e para os lados”, diz Clarice Lispector. No conjunto, constelação cintilante, a intermitência da vida, as páginas soltas de um diário de bordo: laranjas e azuis em ondas expansivas ~ 09.07, ~ nuances do cinza, manhãs de outono ~ 27.09, ~ um rasgo, uma cicatriz ~ 13.06, ~ a dobra vencendo a matéria, o horizonte bipartido, o calor do fogo no declive ~ 10.09, ~~~~~~
Se em Rembrandt o jogo de luz e sombra, o chiaroscuro, acontece dramaticamente no espaço interno do quadro, aqui o diálogo se intensifica com o ambiente externo, as pinturas-objetos permanecem vivas e em constante metamorfose, e isso se deve muito à escolha do alumínio não apenas como suporte, mas elemento constitutivo da obra. Com as estratégias de montagem e as dobras, a chapa do metal sensibilizada pela pintura, multiplicam-se as interações. A superfície lisa e reflexiva captura o que está ao redor, as luzes do ambiente interferem nos campos de cor, acentuam o vinco, acendem e apagam as faces do objeto, criam sombras e novas composições. Essa dinâmica reduz o sentido de distância e estabelece um lugar comum, o espaço é elemento ativo e as obras convidam a caminhar.
Caroline Saut Schroeder

09.07, 2021
Óleo sobre alumínio
56 × 100 cm

20.01, 2026
Óleo sobre alumínio
10 x 149 x 1,5 cm

27.09, 2017
Óleo sobre alumínio
100 x 124 x 08 cm

10.09, 2018
Óleo sobre alumínio
46,5 x 62,5 cm

07.07, 2007
Óleo sobre alumínio
60 x 64 cm

26.09, 2014
Óleo sobre alumínio
125 x 150 cm

13.06, 2022
Óleo sobre alumínio
125 x 150 x 6 cm

19.10, 2017
Óleo sobre alumínio
49 x 69 x 5,5 cm

09.07, 2021
Óleo frente e acrílico verso
56 x 100 x 2,5 cm

12.03, 2015
Óleo sobre alumínio
86 x 122 cm

11.10, 2014
Óleo sobre alumínio
150 x 125 cm

11.10, 22.10, 2018
Óleo sobre alumínio
43,5 x 150 cm

23.03, 10.02, 2015, 2018
Óleo sobre alumínio
96 x 125 cm

10.08, 2021
Óleo sobre alumínio
66 x 62 cm

09.05, 2012
Óleo sobre alumínio
135 x 120 cm

Conversa com a pesquisadora Caroline Schroeder e a artista Tatiana Stropp. 05/03/2026.
“Eu preparo as cores, construo as cores, elas não vem prontas, essas cores são feitas. Somo uma com a outra e a partir dessas cores construídas eu coloco elas juntas para conversarem num mesmo plano. Isso resume um pouco do meu trabalho.”
“Essa questão das cores, ela é muito subjetiva. Eu não faço um projeto da pintura, por exemplo, eu não faço ela menor para depois aumentar, eu já vou direto. Então, algumas se resolvem mais rápido, algumas demoram… aquela meio xadrez que está ali atrás, que tem uma faixa vermelha, eu achei que estava pronta, ela foi para uma exposição, voltou, e aí eu pensei, gente, isso aqui não está pronto! E continuei pintando depois que ela já tinha sido exposta, por isso ela tem duas datas. É uma aventura mesmo, porque depois que está feito, está feito, entende? E as transparências, elas também tem um grau que se consegue; após um tempo não tem mais transparência porque você passou um monte de coisa em cima. Então, é muito de momento.”
“Algumas vezes eu penso em separar os tubos de tinta que eu acho que vão fazer sentido naquela combinação, porém, a coisa só acontece depois que começam as relações ali na pintura. Como as transparências são trabalhadas em sobreposição, às vezes as cores se misturam na própria superfície, e não na mesa, na minha mistura. Por exemplo, as transparências fazem uma terceira cor em cima das duas que já estão lá, e aí, a partir dessa terceira cor, outra foi colocada. É um jogo de vai e vem, de conversa, de como organizar essas relações em que uma potencializa a outra. É colocar as cores pra conversar de um jeito que elas não se agridam, se harmonizem. Sim, é uma conversa.”
Tatiana Stropp

“A chapa de alumínio recebe essas intervenções, essas dobras, que se deslocam da parede, atravessam o espaço, ganham relevo e se projetam no espaço da vida. A partir disso há todo um jogo de luz e sombras nesses trabalhos. É uma sombra que se projeta na parede, há também a pintura no verso que projeta outra sombra colorida, e vai se tornando mais complexo esse jogo. Aqui na galeria ele acontece em um espaço aberto, em que se tem a luz natural. Então, por ser uma superfície de alumínio, ela captura o ambiente, há um reflexo do ambiente, a gente tem essa sombra na parede e essa superfície lisa que reflete o entorno.”
“Eu acho muito interessante o contraste neste seu gesto de artista, desde a escolha dos materiais: o alumínio, que remete também a toda essa tradição construtiva do material industrial, quer dizer, produzido em série dessas chapas, e uma técnica que é tradicional, a pintura a óleo. É muito interessante pensar que essa película de tinta, de pintura, é o que sensibiliza esse material da indústria e o torna um objeto leve. Ele se transforma em outra coisa. Eu acho que aí tem mesmo um compromisso com a vida e uma vida de muitas incertezas.”
Caroline Schroeder

“As chapas de alumínio eu consigo comprar com até três metros. Então, dentro desses três metros, eu projeto um tamanho, mais ou menos duas, três, que eu vou fazer. Começa nesse recorte. As dobras eu faço os projetinhos em cartolina, com as medidas, e aí tem que ir pra oficina, depois para um outro lugar que faz um banho ácido para abrir os poros do alumínio para ele receber tinta e não descascar. Porque o alumínio, industrialmente, é muito oleoso, a gente faz esse banho ácido e depois vai para o ateliê. Então, quando essa chapa chega no ateliê ela já passou por dois, três lugares. E aí, eu faço o preparo aqui.”
“A questão da luz é outro elemento que me interessa bastante. Eu comecei a trabalhar com alumínio na final da minha graduação na Belas Artes, em 2003. Foi um ano de conclusão de curso e a gente estava estudando restauração, suportes de pintura e restauração. Eu estudei os metais e comecei a comprar as chapas, tinha gostado muito de gravar em metal, que eu tinha tido no primeiro ano. Eu tinha buril, tinha algumas chapas de alumínio, e estudando restauração comecei a pintar e experimentar o alumínio.”
“Esse movimento da pessoa em frente da obra, isso é um primor pra mim. Eu quero que as pessoas fiquem dançando na frente do trabalho. Dançando não, mas que andem pra cá, que andem pra lá, que vejam de cá, vejam de lá, vejam o reflexo, vejam o chão. Eu acho que todas as obras são assim, algumas mais, outras menos, e cabe a nós nos darmos o tempo de ver, porque a coisa mais rara hoje em dia é a gente parar pra ver, né? Ao vivo e no lugar. Mas isso me interessa muito, esse movimento, esse caminhar, esse convite para se deslocar na frente. Eu quero que as pessoas olhem de lado para sentir o peso dessa chapa de alumínio. Esse deslocamento faz parte do que eu quero.”
Tatiana Stropp

Fotos: Gilson Camargo