Memórias inventadas | Exposição individual de Washington Silvera

Memórias inventadas | Exposição individual de Washington Silvera

Violões conjugados, martelos que golpeiam a si mesmos, árvores atravessadas por cabos elétricos e uma mesa de pingue-pongue feita de espelho ocupam a Galeria Ybakatu a partir de 15 de agosto. Em Memórias Inventadas, Washington Silvera reúne cerca de 20 trabalhos produzidos nos últimos três anos. Instrumentos musicais, ferramentas, jogos e elementos da arquitetura deixam de obedecer às funções para as quais foram criados e passam a sugerir movimentos, vozes e histórias próprias.

Entre os trabalhos inéditos estão Coré-etuba, Ping Pong, Mirror, 49 Interruptores e as séries Árvore elétrica e Escuta orgânica. Nesta última, o artista esculpe orelhas em fragmentos de madeira provenientes da construção civil, como se a matéria revelasse então a escuta dos espaços dos quais foi retirada. Já 49 Interruptores reúne um conjunto de interruptores associados à arquitetura popular dos anos 1990 em uma obra interativa, que pode ser acionada pelo público.

O título da mostra se aproxima de uma formulação de Walter Benjamin. Em Escavar e recordar, o filósofo afirma que a memória não é um instrumento para conhecer o passado, mas o meio em que o vivido permanece, assim como o solo guarda cidades soterradas. Recordar exige retornar à mesma matéria, revolver suas camadas e reconhecer aquilo que reaparece em fragmentos.

Na exposição, essa imagem ganha peso literal. Icnofóssil 70 reúne tacos de imbuia provenientes do centro de Curitiba. Coré-etuba se apropria de uma porta de carro e do design particular dos táxis de Curitiba que ainda persistem pelas ruas. A cidade se revela incorporada à matéria, marcada pelo tempo de uso e pelo lugar de onde veio.

A escolha do título também encontrou ressonância no livro homônimo de Manoel de Barros. Em Desobjeto, o poeta observa um pente encontrado no quintal que estava “próximo de não ser mais um pente”. A imagem ajuda a reconhecer o limiar em que operam as esculturas de Silvera. Um martelo continua legível como martelo, embora já não possa cumprir o gesto que o define. Um wafer reaparece agigantado em imbuia e caxeta. Os instrumentos preservam cordas e ferragens, mas seus corpos derretem, se conjugam, duplicam-se, triplicam-se e deixam de caber nas posições habituais de quem os toca.

Violão conjugado, 2024-26 – Série objetos acústicos
Escultura em madeira, marchetaria e ferragens de violão
183 x 122 x 14 cm

Na série Objetos Acústicos, essa instabilidade passa pelo som. Violão conjugado, Cavaquinhos gêmeos e Los 3 hermanos mantêm todos os elementos reconhecíveis de instrumentos musicais, enquanto suas novas formas convocam uma sonoridade que primeiro acontece na imaginação. Em Baião Wah Wah, o campo acústico ganha corpo na composição e na performance de Lúcio Lowen, realizadas com esculturas de Silvera.

Os demais núcleos prolongam essa transformação. Ping Pong Mirror substitui a superfície da mesa por um espelho. Durante o jogo, o espaço, os corpos dos jogadores e a trajetória da bola reaparecem invertidos e fragmentados. Nas obras da série Cheese, formas associadas ao alimento são reconstruídas por meio de cortes e encaixes em madeira. “Washington modula os objetos como a literatura fantástica altera as leis do cotidiano. Algo reconhecível permanece, mas cada coisa passa a obedecer a uma vontade própria. Foi essa imaginação, extraída de objetos comuns, que me levou a escrever uma série de poesias ao invés de algo explicativo. Em vez de decifrar as obras, procurei acompanhar as imagens que elas colocam em movimento”, afirma Arthur do Carmo, que assina o texto de apresentação.

Em atividade desde 1994, Washington Silvera desenvolve uma produção que atravessa escultura, instalação, fotografia, vídeo e performance. Seus trabalhos partem de objetos cotidianos, reconstruídos por alterações de matéria, escala ou disposição espacial. O artista já apresentou individuais no Museu Afro Brasil, no Museu Municipal de Arte de Curitiba e na Galeria Ybakatu. Participou da Bienal de Valencia, da ARCO Madrid, da SP-Arte e da TRIO Bienal. Foi indicado ao Prêmio PIPA em 2012 e 2013 e possui obras em acervos como o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, a Fundação Cultural de Curitiba e o Museo de la Solidaridad Salvador Allende.

Memórias inventadas | Exposição individual de Washington Silvera
De 15 de agosto a 25 de setembro de 2026
De segunda a sexta-feira, das 10h às 12h e das 13h30 às 19h

Ping Pong, Mirror, 2026
Espelho, ferro, mdf e objetos de tênis de mesa
274 x 152 x 76 cm

TODA REGRA DESEJA UM ACIDENTE

A bola conhece uma lei curta: tocar o mundo e regressar. Toda regra desenha, em segredo, o lugar de sua desobediência. Em Ping Pong, Mirror, cada queda abre um segundo lance no avesso da superfície. Uma linha divide a mesa, a bola atravessa o ar, o corpo calcula o movimento de ataque ou defesa. Mas aqui o jogo encontra um espelho e devolve a jogada, o jogador, o teto, a sala, o adversário e tudo aquilo que nenhuma regra foi capaz de prever. Quem joga inclina-se sobre o próprio aparecimento. O espelho não devolve um jogador inteiro. Espalha-o no campo. Washington faz da visão uma bola acompanhada por seu duplo.

A poucos passos, a amputação de uma viagem. Uma porta de táxi se separa do carro e conserva, na tinta e no design, uma cidade inteira. Corê-etuba nasce de um corte e ainda parece guardar braços apoiados na janela, endereços mal pronunciados, moedas, chuva, pressa, conversas interrompidas no meio do caminho. Retirada do veículo, a porta transporta memória.

Mais adiante, nos queijos, a madeira pratica outro disfarce. Caxeta, peroba-rosa, zebrano, marfim: veios antigos das árvores assumem a forma breve de um alimento. Reconhecemos o queijo onde a matéria falta, e reconhecemos a madeira naquilo que o furo não conseguiu comer. Em Wafer 100% amargo, o sabor se desloca para o desenho industrial da guloseima, e a boca imagina serragem, resina, sombra. Chocolate e carvão roçam a mesma escuridão. É por esse pouco entre uma coisa e outra que as coisas escapam do próprio nome e voltam com outra matéria debaixo da língua.

Arthur do Carmo
Ago.2026

Coré-etuba, 2026
Porta de carro com tinta automotiva
89 x 109 x 16 cm

Wafle 100% amargo, 2025
Escultura em imbuia e caxeta
115 x 25 x 13 cm
Peça única em imbuia

Brancusiana 2 (O diálogo), 2026
Escultura em viga de peroba rosa
Díptico 13 x 31 x 12 cm (cada peça)

Escuta orgânica, 2026
Escultura em peroba rosa
31 x 13 x 12 cm

Triple Cheese, 2026
Escultura em madeira caxeta (tríptico)
34 x 44 x 3,5 cm (cada)

Doble Cheese, 2025-26
Escultura em peroba rosa e lâminas de zebrano e marfim
158 x 28 x 12 cm

Caxeta Cheese, 2025
Escultura em madeira caxeta
47 x 35 x 5,5 cm

Escuta orgânica Itaúba 2, 2026
Escultura em Itaúba
16 x 25 x 5 cm

A ESCUTA TEM CORPO

Antes de ser música, o som se agarra à matéria e a faz vibrar. Toca a madeira, atravessa a ferragem, demora-se no osso. O corpo se abre quando o som passa. Escutar é permitir que alguma coisa do mundo nos aconteça por dentro. As coisas não se calam. Nós é que chegamos cheios demais de voz. Nos cantos da sala, as paredes criam cartilagem. Cedro, imbuia, pinus, peroba, itaúba, freijó: antigos troncos, vigas, sobras que encostam seus ouvidos na arquitetura. O canto, esse ponto onde o espaço termina, torna-se dobra sensível. Por alguns instantes, o espaço nos ouve.

Escuta e golpe nascem do contato. Uma superfície encontra outra, o ar se suja de vibração. Martelos feitos para abrir caminho na matéria fecham sobre si o círculo da pancada. Correm atrás do próprio gesto, golpeiam a memória de sua utilidade, devolvem à ferramenta a violência que ela lançaria sobre o mundo. O estrondo permanece recolhido, nó escuro dentro do tronco.

Aqui também os instrumentos abandonam a solidão de seus contornos. Os violões e cavaquinhos perderam a medida de sua espécie. Conjugados, gêmeos, irmãos, encostam um corpo no outro até que a anatomia conhecida se torne fábula. Na videoperformance, Lúcio Lowen negocia com um animal acústico. A mão do músico entra nesse corpo com a lembrança de todos os instrumentos que já tocou, e logo a lembrança falha. O gesto reconhece o instrumento, mas o instrumento já sonha noutra língua. Toda matéria guarda um som anterior ao golpe que a transformou. Memória anterior à palavra, batendo baixo, de ouvido colado ao mundo.

Arthur do Carmo
Ago.2026

Martelo reto, 2026
Escultura em madeira caxeta e imbuia
158 x 33 x 4 cm

Martelão, 2013-2021
Tocos de madeira imbuia recolhidos entre 2013 e 2021
27 x 90 x 37 cm

Escuta orgânica – imbuia, 2026
Escultura em imbuia (díptico)
21 x 6 x 6 cm (peça esquerda)
53 x 6 x 6 cm (peça direita)

Cavaquinhos gêmeos, 2026
Escultura em madeira, marchetaria e ferragens de cavaquinho
150 x 40 x 23 cm

“Los 3 hermanos”, 2024-26
Escultura em madeira, marchetaria e ferragens de violão
103 x 113 x 13 cm

Violão conjugado, 2024-26 – Série objetos acústicos
Escultura em madeira, marchetaria e ferragens de violão
183 x 122 x 14 cm

Baião Wah Wah, 2025/26 – Vídeoperformance
Esculturas de Washington Silvera
Composição e performance de Lúcio Lowen
Fotografia e videografia de Gilson Camargo
Iluminação de Antônio “Toni” de Souza
Edição de vídeo de Flávio Filho
Apoio Galeria Ybakatu

Washington Silvera e Lúcio Lowen | Formas sonoras para uma performance electroacústica

ANATOMIA DO CLARÃO

Um interruptor é uma dobradiça mínima no corpo da noite. A mão o encontra antes que os olhos se acostumem ao escuro. Pressão do dedo, estalo seco: um quarto retorna com seus móveis e distâncias, a poeira suspensa no ar. Em 49 Interruptores, pequenas teclas da arquitetura popular dos anos 1990 se agrupam como lembranças táteis, uma pele coletiva. Juntas, já não comandam uma lâmpada, mas formam uma multidão de escolhas e combinações. Acender. Apagar. Acender de novo. A memória conhece esse estalo, capaz de iluminar justamente aquilo que não está mais ali.

Na Árvore elétrica, cabos oferecem ao tronco uma segunda nervura. Raiz, fio, galho, circuito obedecem à mesma febre de ramificar. A eletricidade atravessa a madeira e ocupa o caminho da seiva que um dia alimentou folhas. A parte decepada recebe outra circulação, artificial e humana. Instalação elétrica é o nome doméstico do raio depois de amansado. Madeira e raio se enxertam num corpo impossível, um resto de mata capaz de acender a noite por dentro.

Um homem atravessa desertos para alcançar o quintal. Uma memória inventa distância quando o que está perto se tornou invisível. Em La historia de los 2 que soñaron, a pá encontra em seu duplo um gesto que sai de si e retorna sem tocar a terra. A lâmina que abriria a terra passa a conectar dois pontos distantes. Ninguém cava, e o solo se congela num impasse. O sonho faz do impasse uma superfície provisória. O clarão dura pouco. Depois, escuro. Nele permanece aceso o quintal que a distância havia apagado.

Arthur do Carmo
Ago.2026

49 Interruptores, 2026
Madeira, interruptores e tinta automotiva PU (díptico)
54 x 84 x 5 cm (cada peça)

Árvore elétrica 3 (árvore amoreira com casca), 2026
Cabos elétricos e tronco vegetal
57 x 24 x 11 cm

“La historia de los 2 que soñaron”, 2023/2026
Escultura em inox, cimento e ferro
172 x 78 x 78 cm