trago nesse espelho o vento, as palavras e a pele | Exposição individual de André Rigatti
Em sua terceira exposição individual na Galeria Ybakatu, o artista André Rigatti apresenta um conjunto recente de trabalhos em pintura e gravura que reafirma questões centrais de sua produção. As obras articulam elementos formais da cor, da palavra e da materialidade, construindo superfícies que tensionam figura e fundo, controle e acaso, gesto e estrutura.
A mostra conta com texto crítico de Stephanie Dahn Batista, e integra a programação da Curitiba Art Week 2026, apresentada pela 16ª Bienal Internacional de Curitiba.
De 12 de junho a 31 de julho de 2026

trago nesse espelho o vento, as palavras e a pele
Após muitos anos, André Rigatti retorna ao circuito artístico de Curitiba trazendo uma vasta e intensa trajetória, marcada por pós-graduação, residências artísticas internacionais, exposições e docência universitária. Nesta sua primeira exposição individual desde seu retorno a Curitiba, ele revela, com renovado frescor, a produção que nasce dessa volta ao mundo, sem abandonar os temas centrais que permeiam seu trabalho nas linguagens da pintura e da gravura: o espaço, o urbano e a subjetividade.
Em um diálogo sensível entre as 10 gravuras em metal e as 13 pinturas em serigrafia, acrílica e óleo sobre tela, de variados formatos, André explora os elementos formais da cor e a inserção de palavras que escapam da verbalidade convencional.
As pinturas, algumas monumentais, confrontam o gesto controlado e a textura lisa com a “sujeira” e o peso desfocado do spray de grafite, criando um efeito “all-over” que é organicamente sobreposto por materialidades que escorrem. Esse entrelaçamento provoca uma fricção visual entre formas amorfas, desafiando a tradicional percepção ocidental de figura e fundo. O que parece figura, como campo delimitado carregado de inserções pictóricas e gráficas de desenhos da arquitetura chinesa e pixação urbana dos muros da cidade, é, na verdade, o fundo, gerado também por impressões serigráficas de palavras e gráficos. O amplo espaço colorido, brilhante e com texturas escovadas verticais é o que vem por cima. A espessura e as várias camadas da técnica glosse da pintura holandesa do século XVII, apenas a partir de um olhar atento e contemplativo, decifram esse trompe-l’oeil. As cores desse céu expansivo trazem a ideia de uma abóbada celestial urbana na hora do pôr do sol, do arco-íris ou do firmamento esplêndido da aurora boreal, esta última vivenciada por Rigatti na Finlândia. Esses fenômenos luminosos não vêm como uma ideia romântica, mas sim enquanto um aspecto conceitual sobre a convivência no espaço urbano de um prédio alto: o lugar onde o artista está. A presença do azul remete à cor da casa onde era o ateliê dele, na Rua José Loureiro, no centro de Curitiba, nos idos de 2012. Bem como, o arco-íris em uma obra ou em um conjunto de obras, em especial, faz sutilmente alusão à bandeira LGBTQIAPN+, um posicionamento claramente político em prol da diversidade. Do controle ao descontrole, do meticuloso e exato ao pesado e carregado, do sofisticado ao bruto violento, da forma mecânica à gestualidade, toda pintura se transforma em corpo, carne e pele, marcada pelas cicatrizes do tempo como campo de debate.
As gravuras em metal, realizadas por processos altamente complexos da água-tinta, com vários tratamentos químicos até a aplicação da cor na matriz e sua impressão, geram um diálogo intenso com as pinturas. A complexidade das gravuras advém do domínio técnico do artista que, ao mesmo tempo da cronometragem exata e metódica, assume o acaso descontrolado. Rigatti usa diferentes procedimentos na gravação, como o “marbré”, a aplicação serigráfica de palavras junto à gravação das matrizes ou o uso de um disco para gerar, a partir da espessura do objeto, um relevo. As cores, com diferentes tonalidades, em consonância com as pinturas, provocam um efeito pictórico. Nesse conjunto de gravuras, as letras presentes estão embaralhadas ou espalhadas, negando um fluxo de leitura. O momento da impressão é algo mágico, porque nunca haverá certeza de como vai sair o trabalho. Assim, as gravuras incorporam um estado suspenso que Rigatti considera como meditação.
O título da exposição é inspirado nas músicas “Vermelho”, de Marcelo Camelo, e “Das palavras à pele”, de Phill Veras, reforçando a subjetividade a partir do verbo na primeira pessoa do singular, enquanto sujeito que se coloca.
Por meio de uma técnica complexa, tanto nas pinturas quanto nas gravuras, André Rigatti insere a paisagem urbana e o espaço arquitetônico como um topos social e político que indica sutilmente uma socialidade que está atrás como um vento.
Trago no reflexo o sopro, os verbos e a carne.
Stephanie Dahn Batista

André Rigatti – Sem título, 2026
Serigrafia acrílica, spray e óleo sobre tela
190 x 300 cm
Uma Nota Secundária
Para esta terceira exposição individual junto à Galeria Ybakatu, em Curitiba, apresento um recorte de minha pesquisa desenvolvida nos últimos meses. São pinturas e gravuras em metal nas quais o espaço, a paisagem urbana e seus fragmentos se materializam por meio da abstração.
Meu trabalho parte da experiência cotidiana de habitar a cidade. Interessa-me observar suas arquiteturas, marcas, inscrições, ruídos e silêncios, elementos que se acumulam como camadas de memória e que, aos poucos, se transformam em pintura e gravura, ou melhor, em experiências vividas. Não procuro representar um lugar específico, mas criar espaços onde diferentes tempos e experiências possam coexistir. Os trabalhos se apresentam como paisagens por analogia, imaginadas e irreais, constituídas a partir de fragmentos do espaço concreto que habito, formados por palavras, linhas, estruturas arquitetônicas e relações interpessoais.
Materializados pelo uso da serigrafia e do spray, esses fragmentos do espaço se constituem como gráficos geradores da operação inicial da pintura. Aparecem como base, por debaixo dos recortes da cobertura final em óleo. Que acabam por revelar a memória de sua própria construção, a produzirem paisagens que não se deixam apreender de imediato. Já nas gravuras em metal, esses elementos urbanos e paisagísticos são inscritos em matrizes de cobre por meio da serigrafia, utilizada como veículo para a fixação do verniz, em diálogo com procedimentos como a água-forte e a água-tinta marbré.
Em todos os trabalhos há recorrências que me acompanham há quase duas décadas: a construção de espaços que oscilam entre o orgânico e o geométrico, a representação e a imaginação, a concretude e a invenção, a sociabilidade e o isolamento. Essas investigações nascem da observação direta do mundo, de suas paisagens e de suas transformações, mas também das memórias e experiências acumuladas em diferentes lugares. Interessa-me pensar a coexistência de estados aparentemente opostos, como a luz da natureza, que ao mesmo tempo cobre e revela, vela e faz ver. Esse movimento estabelece um diálogo constante com a experiência de estar vivo, no campo das relações, das trocas e dos afetos coletivos, mas também com a materialidade do cotidiano, com o ato de pisar o solo, habitar o asfalto e transitar entre edifícios, numa tensão permanente entre natureza e cidade. Desse conjunto de experiências deriva uma escrita que incorpora discursos políticos recolhidos do cotidiano e da mídia, versos literários e composições musicais que me acompanham, assumindo, em alguns momentos, uma relação direta com a pixação e com as formas de inscrição próprias do território urbano que habito.
A palavra e o spray, seriam talvez, esse encontro com a concretude, com a vida. Aparecem ilegíveis, como fragmentos, ecos ou lembranças, aproximando-se da maneira como construímos nossas próprias memórias. Assim como a cidade, a linguagem também é feita de sobreposições, apagamentos e permanências. Da verbalidade, porém, interessa-me sobretudo a passagem para a visualidade, para um estado de imanência.
Penso esses trabalhos como dotados de superfícies vivas e respirantes, nas quais pintura e gravura que originalmente seriam espaços também se colocam como corpos. Há nelas algo de pele, de carne e de cicatriz, marcas produzidas pelo tempo, pela experiência pessoal e pelos encontros coletivos. Nesse sentido, a paisagem urbana deixa de ser apenas um espaço, ou uma lembrança dele. Torna-se um lugar de afetos, disputas e convivências que deixam marcas.
Esta exposição reúne trabalhos que nasceram da intenção de transformar experiências cotidianas em ações abertas, capazes de acolher diferentes leituras. Se há um elemento que atravessa todas as obras, talvez seja a tentativa de tornar visível aquilo que normalmente passa despercebido: nossas ações como fragmentos da cidade, gerados pelos gestos das pessoas, da passagem da luz e seus efeitos, da força das palavras e do movimento da natureza. É a concretude que se faz ver como subjetividade, como intenção e como desejo.
André Rigatti

Andre Rigatti – Sem título, 2026
Gravura em metal água-tinta sobre papel Hahnemühle
20 x 15 cm
Link para catálogo digital trilingue – português/inglês/alemão
Registro integral da conversa com André Rigatti, Stephanie Dahn Batista e Fábio Noronha, em 11/07/26.
Arte gráfica: Fabiane Queiroz
Fotos: André Rigatti e Gilson Camargo
André Rigatti em seu ateliê. Abril 2026.
