trago nesse espelho o vento, as palavras e a pele | Exposição individual de André Rigatti

trago nesse espelho o vento, as palavras e a pele | Exposição individual de André Rigatti

Após anos de atuação entre residências artísticas internacionais, pesquisa acadêmica, docência universitária e exposições no Brasil e no exterior, o artista André Rigatti retorna ao circuito artístico de Curitiba com um conjunto recente de trabalhos em pintura e gravura que reafirma questões centrais de sua produção: o espaço, o urbano e a subjetividade.

A mostra reúne 10 gravuras em metal e 13 pinturas realizadas em serigrafia acrílica e óleo sobre tela, em diferentes formatos. Em um diálogo sensível, as obras articulam elementos formais da cor, da palavra e da materialidade, construindo superfícies que tensionam figura e fundo, controle e acaso, gesto e estrutura.

Nas pinturas, algumas de caráter monumental, André Rigatti aproxima a textura lisa e o gesto preciso da presença difusa do spray de grafite, criando campos visuais em que camadas, escorrimentos e marcas se sobrepõem organicamente. O resultado é uma paisagem instável, na qual formas amorfas e fragmentos de linguagem sugerem estados suspensos e deslocamentos perceptivos.

As gravuras em metal, produzidas a partir de processos como a água-tinta “marbré” e da inserção serigráfica de palavras sobre as matrizes, expandem essa investigação. A técnica incorpora diferentes tonalidades e efeitos materiais, aproximando o rigor da gravura de uma dimensão mais atmosférica e experimental.

A exposição conta com texto crítico de Stephanie Dahn Batista, e integra a programação da Curitiba Art Week 2026, apresentada pela 16ª Bienal Internacional de Curitiba.

De 12 de junho a 31 de julho de 2026

André RigattiSem título, 2026
Serigrafia acrílica, spray e óleo sobre tela
190 x 300 cm

trago nesse espelho o vento, as palavras e a pele

Após muitos anos, André Rigatti retorna ao circuito artístico de Curitiba trazendo uma vasta e intensa trajetória, marcada por pós-graduação, residências artísticas internacionais, exposições e docência universitária. Nesta sua primeira exposição individual desde seu retorno a Curitiba, ele revela, com renovado frescor, a produção que nasce dessa volta ao mundo, sem abandonar os temas centrais que permeiam seu trabalho nas linguagens da pintura e da gravura: o espaço, o urbano e a subjetividade.

Em um diálogo sensível entre as 10 gravuras em metal e as 13 pinturas em serigrafia, acrílica e óleo sobre tela, de variados formatos, André explora os elementos formais da cor e a inserção de palavras que escapam da verbalidade convencional.

As pinturas, algumas monumentais, confrontam o gesto controlado e a textura lisa com a “sujeira” e o peso desfocado do spray de grafite, criando um efeito “all-over” que é organicamente sobreposto por materialidades que escorrem. Esse entrelaçamento provoca uma fricção visual entre formas amorfas, desafiando a tradicional percepção ocidental de figura e fundo. O que parece figura, como campo delimitado carregado de inserções pictóricas e gráficas de desenhos da arquitetura chinesa e pixação urbana dos muros da cidade, é, na verdade, o fundo, gerado também por impressões serigráficas de palavras e gráficos. O amplo espaço colorido, brilhante e com texturas escovadas verticais é o que vem por cima. A espessura e as várias camadas da técnica glosse da pintura holandesa do século XVII, apenas a partir de um olhar atento e contemplativo, decifram esse trompe-l’oeil. As cores desse céu expansivo trazem a ideia de uma abóbada celestial urbana na hora do pôr do sol, do arco-íris ou do firmamento esplêndido da aurora boreal, esta última vivenciada por Rigatti na Finlândia. Esses fenômenos luminosos não vêm como uma ideia romântica, mas sim enquanto um aspecto conceitual sobre a convivência no espaço urbano de um prédio alto: o lugar onde o artista está. A presença do azul remete à cor da casa onde era o ateliê dele, na Rua José Loureiro, no centro de Curitiba, nos idos de 2012. Bem como, o arco-íris em uma obra ou em um conjunto de obras, em especial, faz sutilmente alusão à bandeira LGBTQIAPN+, um posicionamento claramente político em prol da diversidade. Do controle ao descontrole, do meticuloso e exato ao pesado e carregado, do sofisticado ao bruto violento, da forma mecânica à gestualidade, toda pintura se transforma em corpo, carne e pele, marcada pelas cicatrizes do tempo como campo de debate.

As gravuras em metal, realizadas por processos altamente complexos da água-tinta, com vários tratamentos químicos até a aplicação da cor na matriz e sua impressão, geram um diálogo intenso com as pinturas. A complexidade das gravuras advém do domínio técnico do artista que, ao mesmo tempo da cronometragem exata e metódica, assume o acaso descontrolado. Rigatti usa diferentes procedimentos na gravação, como o “marbré”, a aplicação serigráfica de palavras junto à gravação das matrizes ou o uso de um disco para gerar, a partir da espessura do objeto, um relevo. As cores, com diferentes tonalidades, em consonância com as pinturas, provocam um efeito pictórico. Nesse conjunto de gravuras, as letras presentes estão embaralhadas ou espalhadas, negando um fluxo de leitura. O momento da impressão é algo mágico, porque nunca haverá certeza de como vai sair o trabalho. Assim, as gravuras incorporam um estado suspenso que Rigatti considera como meditação.

O título da exposição é inspirado nas músicas “Vermelho”, de Marcelo Camelo, e “Das palavras à pele”, de Phill Veras, reforçando a subjetividade a partir do verbo na primeira pessoa do singular, enquanto sujeito que se coloca.

Por meio de uma técnica complexa, tanto nas pinturas quanto nas gravuras, André Rigatti insere a paisagem urbana e o espaço arquitetônico como um topos social e político que indica sutilmente uma socialidade que está atrás como um vento.

Trago no reflexo o sopro, os verbos e a carne.

Stephanie Dahn Batista

Andre Rigatti – Sem título, 2026
Gravura em metal água-tinta sobre papel Hahnemühle
20 x 15 cm

Arte gráfica: Fabiane Queiroz
Fotos:
André Rigatti e Gilson Camargo