A luz e o tempo | Exposição individual de Guita Nissel

Guita Nissel: A luz e o tempo

Observando as cores espalhando no papel nos proporciona liberdade e fluidez, permitindo que a mente se desligue das preocupações diárias. Observar o mundo com mais leveza ensina a dialogar com o imprevisível, é como na vida, nem tudo pode ser contido. (Guita Nissel/setembro de 2026)

A exposição de Guita nos mostra a possibilidade de adentrar em tempos e instâncias múltiplas. Vislumbres do ensino de arte no Paraná no início dos anos 1960; assistir ao compartilhamento da intimidade com os antigos mestres da arte paranaense. Seguir um pensamento artístico que vivenciou o ambiente da EMBAP com seus mestres fundadores e com os ex-alunos desses mestres, também seus colegas, que por sua vez professores, repassavam as discussões para o que viria a ser chamada de geração (19)80.

Guita ingressa no curso de Pintura da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, EMBAP, em 1961, onde vários de seus colegas acabarão se tornando professores. Fernado Calderari, João Osorio Brzezinski, Juarez Machado, além da convivência com Luiz Carlos de Andrade e Lima, Jair Mendes e Mário Rubinski. Na Escola, passa a conviver com seus professores, sendo convidada por Guido Viaro para participar do seu atelier de aquarela, no famoso sótão da EMBAP. Participa de sessões de paisagem com Theodoro De Bona e Waldemar Curt Freyesleben, que a orientam dentro e fora das grades curriculares.

Essa convivência recheada de histórias e anedotas de vida e arte, torna sua trajetória, e o acompanhamento desta exposição o demonstra, um raro exemplo de alguém que testemunhou os processos didáticos e as ideias sobre o ensino de arte dos mestres fundadores da EMBAP e da chamada arte moderna, pós Andersen, feita no Paraná. Nesta exposição, podemos acompanhar um pouco desse percurso, e exemplos do olhar dos mestres e da artista sobre a arte e a vida no início da segunda metade do séc. XX.

Voltando à Escola, após um hiato de 10 anos, retoma o curso agora com uma geração apressada e ávida por mudanças. A tal da geração 80 tem um ritmo frenético, como se não houvesse amanhã. Mas ela sabia, sempre soube, que “a vida é rápida, mas o agora é eterno”. E, fiel a seus princípios e experiência, mantém-se concentrada na sua linguagem de escolha, a aquarela, que, segundo ela, flui com o tempo e a luz. “Desacelerando o tempo”, percebe que coisas simples se transformam em grandes realizações. Sempre segundo Guita, a aquarela, ao proporcionar concentração e leveza, se abre ao debate amigável com o imprevisível. Quem precisa mais que isto?

Geraldo Leão
Out. 2026

A artista plástica Maria Augusta Araújo Nissel apresenta, a partir de 31 de outubro, sua primeira exposição individual na Galeria Ybakatu, em Curitiba

A mostra “A luz e o tempo” reúne obras de diferentes períodos e percorre sua trajetória artística, desde os trabalhos iniciais até a produção atual, com destaque para a aquarela, linguagem à qual dedicou a maior parte de seu fazer artístico.

Também conhecida como Guita, Maria Augusta começou nas artes ainda na infância e ingressou no curso de Pintura da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap) em 1959, integrando uma das primeiras turmas, que teve como professores alguns dos maiores e mais importantes nomes da arte paranaense. Durante sua formação, foi convidada por Guido Viaro a participar de seu ateliê de aquarela, e teve aulas com outros nomes conceituados, como Theodoro De Bona, Freyesleben e Erbo Stenzel. Também chegou a trabalhar com De Bona, experiência que ampliou seu contato com a prática artística e com os conhecimentos transmitidos por esses mestres.

A escolha pela aquarela também passou por uma questão prática: a artista desenvolveu alergia à tinta a óleo e a solventes, o que a levou a explorar outras possibilidades. Na técnica, encontrou uma linguagem que valoriza a transparência, a luz e a relação entre água e pigmento. “A essência da aquarela é o papel. A luz é o papel. Se você perder a luz, que é o papel, você perdeu a aquarela”, afirma Maria Augusta, para quem a contenção também é parte fundamental do processo. “Quanto menos tinta tiver, melhor fica a aquarela”, completa.

Interessada em experimentar materiais e procedimentos, a artista segue explorando novas possibilidades, entre elas a aquarela caligráfica, técnica à qual passou a se dedicar nos últimos anos. Sua relação com a pintura acontece em ciclos, alternando períodos de produção com outros de afastamento, sem que isso represente uma ruptura com a arte.

O compartilhamento do conhecimento também ocupa lugar importante em sua trajetória. Maria Augusta promove aulas gratuitas de aquarela para pequenos grupos de jovens e adultos, movida pela convicção de que aquilo que se aprende precisa ser transmitido. “O que você tem não pode morrer com você, tem que persistir através dos outros”, diz. A ideia remete à própria formação da artista, que reconhece nos ensinamentos de seus professores uma herança que continua presente em seu trabalho.

A exposição ganha um significado especial por acontecer na Galeria Ybakatu, fundada por sua filha, Tuca Nissel, que há mais de 30 anos atua no circuito da arte contemporânea brasileira. Assim como sua mãe, a galerista também se formou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Seu trabalho de conclusão do curso de Escultura foi uma exposição realizada na casa da família, que passou a ser o primeiro endereço da Galeria Ybakatu. Desde então, a galeria consolidou sua presença como espaço de grande destaque na arte contemporânea, mantendo uma pesquisa artística sensível. “A arte sempre fez parte da nossa vida, mas ver a trajetória da minha mãe reunida numa exposição aqui na galeria é muito especial. É uma história que vem de antes da Ybakatu e que, de certa forma, também faz parte da história dela”, comenta Tuca.

Ao longo de três décadas, a Ybakatu realizou mais de 110 exposições individuais e coletivas e participou de importantes feiras de arte no Brasil e no exterior. A retrospectiva de Maria Augusta Araújo Nissel aproxima, assim, duas trajetórias ligadas pela arte, reunindo a memória de uma artista e a história de um espaço dedicado à difusão da produção artística contemporânea.

A luz e o tempo, de Guita Nissel
De 31 de outubro a 19 de novembro de 2026
De segunda a sexta-feira, das 10h às 12h e das 13h30 às 19h

Guita Nissel – Santa Felicidade, 1979
Óleo sobre tela
87,5 x 97 cm

“Aconteceu que um dia eu estava na rua 15, ia fazer uma compra, e encontrei o professor De Bona. Aí ele falou pra mim: olha, eu tô com um modelo muito bom, você não quer ir lá pintar no ateliê? Eu falei, lógico que eu quero professor, mas vamos fazer uma coisa, vamos dividir o modelo, eu pago a metade e o senhor paga a metade. Ele falou, não, não, assim não. Você tem carro e dirige, e eu estou querendo fazer umas paisagens e não tenho carro, então você me leva e não precisa pagar o modelo. E assim a gente fez. Daí fomos pra Santa Felicidade, eu coloquei o meu cavalete virado pro lado direito, né? E ele ficou de frente. Aí ficamos juntinho do outro, assim, um aqui outro ali, pintando, e essa era a casa da senhora que nos levava café. Santa Felicidade era isso, era cheia de vilas, de pessoas que plantavam milho, enfim, eram pequenos sítios onde moravam os colônos italianos. Ele era italiano, conversava em italiano com ela, e ela levava um cafezinho pra gente. Foi muito agradável esse tempo, muito agradável. Então, pintamos essas telas no mesmo lugar e na mesma hora. Em 1979, Santa Felicidade era isso.”

Theodoro De Bona – Santa Felicidade, 1979
Óleo sobre tela
97 x 107,5 cm

Guita Nissel – A rosa eterna, 1979
Óleo sobre tela
75 x 64 cm

“Era uma modelo que o professor De Bona me ofereceu para pintar junto. Ele gostou muito do meu trabalho e falou, vou te dar um presente. Eu fiquei muito animada, pensei que ía ganhar um quadro. Mas ele não me deu um quadro, ele pegou a minha palheta, fez uma garrafa e uma rosa e falou: vou te dar uma rosa eterna. Eu fiquei muito feliz com essa rosa eterna. Sempre que eu olho esse trabalho me lembro dele com muito carinho. Foi sempre uma pessoa muito íntegra, muito boa, bom professor, ótima pessoa. Eu gostava muito dos meus professores.”

Guido Viaro – Sem título, 1959
Tinta de sapato sobre papel
75 x 64 cm

“Este é um trabalho do professor Viaro. Eu estava no meu cavalete pintando, tinha colocado papel e ele falou: eu estou com vontade de pintar hoje, deixa eu pintar aí no teu cavalete. Eu falei, professor, essa tinta que eu botei aí é uma tinta que eu comprei para pintar sapato. Ele falou, não tem importância, vamos experimentar. Aí ele pegou uma estopa, passou a tinta preta na estopa, e isso é um papel de embrulho, papel comum. Aí fez o fundo com a estopa, pegou o pincel com aquela mesma tinta preta, de sapato, e fez essas figuras maravilhosas em 15 minutos, menos, acho que em 10 minutos fez esse trabalho. Quando ele acabou eu fiquei encantada, e eu falei para ele, professor, agora nós vamos conversar, a tinta é minha, o papel é meu e o trabalho é meu. Mas ele não assinou. Aí eu peguei molhado mesmo e levei embora pra casa. Não está assinado, mas é dele, e registra um momento muito interessante, que é uma conversa boa. Foi muito bonito isso aí.

Então eu falei, professor, como o senhor fez isso com aquarela? Eu queria aprender aquarela. Ele falou, você quer? Quero. Então, depois da aula você sobe lá no sotão, que eu tenho lá três alunos, depois das seis, vai até às oito, acho que você leva jeito. Falei, tudo bem, eu aviso lá em casa que eu vou chegar mais tarde. Naquele tempo não tinha problema nenhum chegar tarde, ía de ônibus, pegava o ônibus na Praça Zacarias, eu morava no Batel, ali pertinho, e fiquei, acho que foram umas 10 aulas. Não cobrou nada, gostou muito do meu trabalho.”

Guita Nissel – Sem título, 1959
Óleo sobre tela (díptico)
62 x 48 cm (cada)

“Esse trabalho eu pintei em 1959. Havia um Salão de Artes no Biblioteca Pública, e eu não queria enviar, mas a minha irmã insistiu e levou. Falei, então se você levar o prêmio em dinheiro é meu, porque era muito dinheiro, uns 80 mil reais daquele tempo, e os quadros são seus. Mas, eu pensei que não seria nem aceita no salão. Ela levou, e no dia do júri a chefe da Biblioteca me ligou dizendo que eu havia ganhado o primeiro prêmio de pintura, e o Juarez Machado o primeiro prêmio de desenho. Foi uma premiação enorme, com esse dinheiro eu comprei todo o meu enxoval; e o Juarez levou a Belas Artes inteira para jantar no hotel que tinha sido recém inaugurado em frente à Biblioteca, e gastou o dinheiro todo ali, sendo que ele não tinha nem dinheiro para pagar a pensão, tanto que tinham feito uma vaquinha para pagar a pensão dele. Esse foi um episódio interessante, e o professor Viaro me disse uma coisa: olha, você ganhou o primeiro prêmio, eu se fosse você não mandava mais nada pra salão, se você ganhar uma menção honrosa agora vai ser uma diminuição. Eu achei muito engraçado e realmente não mandei mais.”

Guita Nissel – Autorretrato, década de 1960
Óleo sobre tela
54,5 x 40,5 cm

Guita Nissel – Sem título, 1960
Aquarela
41,5 x 35 cm

Guita Nissel – Teresa, 1987
Aquarela
40,5 x 50,5 cm

Guita Nissel – Abdon Augusto de Araujo, 1987
Aquarela
36 x 45 cm

Guita Nissel – Sem título, 1963
Aquarela
43,5 x 60 cm

Guita Nissel – Sem título, 1963
Aquarela
41 x 57 cm

Guita Nissel – Passeio Público de Curitiba, 1975
Aquarela
33,5 x 37,5 cm

Guita Nissel – Sem título, 1975
Aquarela
41,5 x 57,5 cm

Guita Nissel – Sem título, 1987
Aquarela
44 x 58 cm

Guita Nissel – Sem título, 1987
Aquarela
41,5 x 57,5 cm

Guita Nissel – Sem título, 1987
Aquarela
34 x 47 cm

Guita Nissel – Sem título, 1987
Aquarela
34 x 47 cm

Guita Nissel – Sem tìtulo, 2025
Aquarela
33,5 x 37,5 cm

Guita Nissel – Sem tìtulo, 2025
Aquarela
32 x 55 cm

Guita Nissel – Sem tìtulo, 2025
Aquarela caligráfica
40,5 x 31,5 cm

Guita Nissel – Sem tìtulo, 2025
Aquarela caligráfica
27 x 30,5 cm

Guita Nissel – Sem tìtulo, 2026
Aquarela caligráfica
x cm

Guita Nissel – Sem tìtulo, 2026
Aquarela caligráfica
39 x 69 cm

NA MÍDIA:

Artista plástica Maria Augusta Nissel abre primeira exposição individual na Galeria Ybakatu neste sábado

Maria Augusta Nissel apresenta retrospectiva de sua trajetória artística em primeira exposição individual na Ybakatu

Galeria Ybakatu recebe exposição individual de Guita Nissel

https://hojepr.com/maria-augusta-nissel-apresenta-retrospectiva-de-sua-trajetoria-artistica-em-primeira-exposicao-individual-na-ybakatu/

https://www.katiavelo.com.br/maria-augusta-nissel-reune-seis-decadas-de-trajetoria-artistica-na-galeria-ybakatu/

https://jornalaguaverde.blogspot.com/2026/10/maria-augusta-nissel-apresenta.html

https://www.bemparana.com.br/publicacao/blogs/teatrocuritiba/exposicao-individual-de-maria-augusta-araujo-nissel-abre-na-galeria-ybakatu/

https://www.segs.com.br/eventos/457874-maria-augusta-nissel-apresenta-retrospectiva-de-sua-trajetoria-artistica-em-primeira-exposicao-individual-na-ybakatu

https://www.diarioinduscom.com.br/Noticias/892560/maria_augusta_nissel_apresenta_retrospectiva_de_sua_trajetoria_artistica_em_primeira_exposicao_individual_na_ybakatu

https://alicevarajao.blogspot.com/2026/10/ybakatu-apresenta-retrospectiva-luz-o.html

https://dasartes.com.br/agenda/guita-nissel-galeria-ybakatu/

https://www.radioculturadecuritiba.art.br/maria-augusta-nissel-apresenta-retrospectiva-de-sua-trajetoria-artistica-em-primeira-exposicao-individual-na-ybakatu/

A luz e o tempo nas aquarelas de Guita Nissel

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